Eleições Europeias: A triste realidade de quem deixou de acreditar, mais do que na política, no seu próprio futuro

Até poderia justificar o título deste editorial, poderia, mas não vou. Até porque a sua interpretação e significado são bem simples. Mas poderia ter escolhido outro como, por exemplo, “Tristes daqueles que deixam o seu destino em mãos alheias”. Talvez, até, este último fosse o mais indicado. Provavelmente, escolhi mal. Provavelmente não, com toda a certeza.

Ainda no rescaldo de domingo, o dia, de facto, em Portugal, devia ter sido marcado pelas Eleições Europeias. Devia, mas não foi, excetuando, talvez, pelos noticiários da noite. A verdade é que para muitos portugueses, a grande maioria, este foi um domingo qualquer, ora no shopping a fazer que fazem compras, ora sentados no sofá a rever um daqueles filmes que já passou, pelo menos, dez vezes na TV, ora passado numa qualquer praia fluvial do distrito, até porque não temos mar, ainda. Houve tempo para tudo, menos para aquilo que realmente importa. E aquilo que realmente importa, neste momento, ontem, em particular, era só a Europa. Só… Como quem diz, é só o nosso futuro que está em causa. Só…

Mas vamos a dados. Em Portugal, a taxa de abstenção alcançou uns inéditos 68,6 por cento. E no distrito de Bragança conseguiu, ainda, ser maior, cifrando-se nuns inacreditáveis 70,5 por cento. E a culpa não pode ser só do sol, do bom tempo e do típico passeio de domingo. Então como bom português que sou, lembrei-me de procurar alguém que possa culpar. A União Europeia (UE) até podia ser um forte candidato, podia, mas não o é. Seria injusto culpar uma instituição depois desta ter injetado da nossa economia centenas de milhões de euros ao longo dos últimos anos. Tantos milhões que nos obrigam a perder-nos nas contas. UE de fora, quem resta? Só dois potenciais culpados. Os portugueses que não querem saber e isso deixar-me-ia muito triste, por isso deixo-os de fora, para já. Ou, então, a classe politica. Os culpados do costume e que, neste caso, em concreto, até poderiam encaixar como uma luva. Mas já lá vamos... 

 

“Só tem autoridade para criticar os políticos quem vota. Ao não quererem escolher quem vos representa ficam responsáveis por não quererem escolher quem vos representa”, Marcelo Rebelo de Sousa

 

A agravar toda esta questão da abstenção nacional, o sentimento geral de que estas eram as europeias mais importantes de sempre. E eram. E são. Esta urgência de exercer um direito, um dever, uma obrigação, conduziu massivamente às urnas os europeus conscientes da relevância destas eleições, dando origem à maior participação eleitoral do último quarto de século com metade dos 425 milhões de eleitores da UE a votarem, e bem, por um futuro potencialmente melhor.

Curioso, a nível paradoxal, é que à maior adesão eleitoral dos últimos 25 anos na totalidade dos 28 Estados Membros corresponde, inequivocamente, a maior taxa de abstenção de sempre no País dos Descobrimentos. Mas estaria a chover ou, inclusive a nevar nos céus dos nossos homólogos europeus? Será que, antevendo já as elevadas taxas de abstenção devido às temperaturas negativas que se faziam sentir, os Governos dos países do centro e norte do “Velho Continente” decidiram criar uma bolha de calor ao redor das urnas com aquecimento central de topo e uns motivadores 28 graus para, assim, inverterem a situação? Parabéns! Conseguiram! Não sei o que fizeram, mas conseguiram. Até “nuestros hermanos” conseguiram aumentar a percentagem de participação e não precisaram de bolha nenhuma. Já “Nós Por Cá”, não fomos tão bem-sucedidos. Nem contribuímos.

E num mundo cada vez mais Global, é quase hipócrita alienarmo-nos deste sentimento europeísta que, por esta altura, já devia orientar intrinsecamente a nossa conduta neste espaço comum de diversidade e multiculturalidade, que só pela sua existência nos enriquece. E, por isso, devíamos ser gratosEntrámos, envergonho-me de o dizer, enquanto cidadão participativo que procuro ser, no restrito grupo dos embaraçosos quatro maiores abstencionistas e isso, meus caros, merece uma reflexão mais que profunda. Estará enferma esta “nossa” Democracia? Onde estão, hoje, os ideais que inspiraram a construção de um espaço europeu digno, sem fronteiras, inclusivo, de liberdade e capaz de produzir um quarto da riqueza mundial?

Regressemos, então, à culpa nunca abandonada, enterrada na mente e na alma de qualquer bom português. E no verdadeiro espírito de solidariedade que, também, nos carateriza, até seria aqui capaz de dar a outra face como fez Jesus durante o Sermão da Montanha, seria capaz, inclusive, de fazer um mea culpa, mas não posso, não devo, por mais que queira. Simplesmente porque EU FUI VOTAR. E tu? E a culpa? Morrerá solteira? Em Portugal, é bem provável. E tu? E a culpa? Será mesmo dos políticos e dos partidos? Não me quer parecer. Até porque havia 17 possibilidades à escolha do freguês. E tu? E a culpa? Talvez, só por uma única vez, a culpa desta paródia do “não querer saber porque está lá longe e a mim não me incomoda” seja mesmo do belo do passeio de domingo.

 

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